António Correia

António Brochado Correia: «Portugal no pós-quarentena. Como será?»

É uma pergunta a que todos nos diz respeito e que seguramente nos vários momentos de reflexão a que este período nos sugere nos atravessa a nossa mente. As respostas podem ser quantas as estimativas de potencial recessão que o país ou a Europa irão ter nos próximos meses. Ou seja, ninguém sabe. E aqui, tal como as estimativas podem ir de 2% a 12%, também a sociedade que teremos daqui a alguns meses pode ir de uma sociedade com mais esperança no futuro, a uma sociedade mais preocupada com futuras pandemias. Não é uma questão de mais ou menos realistas, mas apenas de acreditarmos mais ou menos no futuro, mais otimista ou mais pessimista, quem vê o copo sempre meio cheio ou meio vazio. No fundo, é uma questão de fé, de educação, até de cultura, em compreender o mundo e saber que sempre assim foi e assim será – com desafios, crises, incertezas, mas também de oportunidades, soluções, respostas – a verdadeira diferença estará sempre na nossa capacidade de ler os sinais e a nossa preparação na reação. É assim nas nossas vidas, somos muito mais caracterizados pela forma como respondemos ao que nos acontece, do que na realidade nos acontece. Portanto, deve ser fé e esperança no futuro que cada um de nós deve colocar na sua mente, acreditar que quem nos lidera nas várias matérias fará bem a sua parte, e que nós, cidadãos, faremos a nossa, seja nas opções, seja nas ações concretas que tomamos.

Feita esta introdução, onde acho que Portugal estará daqui a alguns meses? Após a primeira mensagem, não será difícil percecionar que o que vou escrever a seguir seguirá uma linha mais otimista – a minha visão do futuro. Porque acredito nas pessoas, em Deus, na nossa capacidade de enfrentarmos coletivamente um desafio que é comum, de irmos buscar o melhor de nós, na determinação, na responsabilidade, na inclusão e solidariedade. E isso faz muita diferença no modo como olhamos o mundo e estabelecemos as nossas previsões. Mas também no modo como acreditamos de que somos capazes de vencer, com dúvidas, com incertezas – precisamente porque as temos somos mais fortes.

Segundo dados das últimas crises virais e da China mais recentemente, o início da recuperação acontece 2 meses após o início do decréscimo de infetados, o que a julgar pelos modelos que temos usado deverá iniciar-se em junho ou julho. Dados mostram crescimentos acelerados nas últimas semanas na China nas zonas mais afetadas. A Nike anunciou que voltou a ter aberto 80% dos espaços que tinham encerrados em fevereiro. Serve isto para evitar um decréscimo no nosso PIB neste ano? Não. Teremos um 2020 com diminuição da nossa produção, dado o impacto de uma economia mundial quase parada durante muitas semanas seguidas. Mas para 2021 seguiremos em recuperação. Pode ser lenta, mas seguirá em frente. Esta crise é mais abrangente, mais rápida e com efeitos imediatos devastadores, mas também assim será a recuperação.

Nesta fase, volto ao início, temos que ter esperança, sermos todos responsáveis, cada um nas suas tarefas, proteger pessoas e empregos, manter a economia em funcionamento. O “novo normal” será mais digital no nosso modo de trabalhar, valorizando mais a vida e os que estão connosco, a saúde e o bem-estar, mais imaterial que material, gerindo para a sociedade, reconhecendo que temos muito pouco de garantido, só a nossa fé. E prepararmo-nos para a crise que um dia virá depois desta.

Lisboa, 06 de Abril de 2020

António Brochado Correia

Territory Senior Partner PwC Portugal, Angola e Cabo Verde

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