António Lagartixo

António Lagartixo: «Esperar o inesperado!»

Esta crise é diferente, não é por acaso que a comparação mais recorrente tem sido com um período de guerra.

É difícil focarmo-nos na economia quando o que está em causa é a segurança e o bem-estar das pessoas, mas é essencial procurar equilibrar as decisões que se tomam compreendendo o seu impacto para além da pandemia, balanceando o impacto no presente e no futuro.

Traçar um plano para o futuro, neste contexto de incerteza sem precedentes, é um desafio para todos os líderes sem exceção.

As perspetivas são que vamos enfrentar uma das mais fortes recessões de que há memória da nossa História – as previsões variam entre -3,7% e -20% do PIB, sendo que a magnitude deste intervalo é por si só revelador da incerteza que vivemos. A contração da economia trará naturalmente um aumento do desemprego, uma contração do consumo e nova redução da atividade industrial e comercial.

Uma crise da economia real, onde a combinação da manutenção dos postos de trabalho, salvaguarda dos rendimentos de capital e uma fundamental “injeção de liquidez”, surgem como a única forma de evitarmos esta espiral recessiva, criando fôlego para que as empresas possam, ultrapassada a emergência, continuar a sua atividade e recuperar a normalidade assim que possível.

As medidas que têm vindo a ser implementadas em Portugal, como as regras de lay-off, as linhas de crédito às empresas e as moratórias no financiamento às empresas e famílias, vão no sentido certo, mas pecam, na minha opinião, por defeito no valor e na forma.

Sabemos que o Estado se prepara para aumentar o valor das linhas de crédito que estão disponíveis, mas conhecemos também as suas limitações no que concerne à capacidade para injetar capital na economia: o ânimo breve de um ano com excedente orçamental, não nos permite ultrapassar o facto de termos uma dívida pública próxima dos 120% do PIB (117,7% em 2019) que nos faz concluir que o Estado Português não tem a mesma capacidade de intervenção de outros países.

Mas gostava que a minha reflexão se focasse sobretudo na forma que estas medidas assumem. A generalidade dos apoios anunciados até ao momento, centram-se em soluções que acentuam uma vez mais o endividamento, em vez de procurar um equilíbrio entre 1) o endividamento para suprir situações de tesouraria de curto prazo, e 2) a capitalização do tecido empresarial e dos consumidores para situações mais estruturais.

Sei que qualquer solução de capitalização das empresas requer sempre soluções criativas e audazes de maneira a dar algumas garantias de boa utilização do capital ao Estado e, em simultâneo, manter o incentivo à iniciativa privada.

Soluções que passem pela implementação de subsídios do Estado a fundo perdido (ou parcialmente perdido) às empresas – condicionados naturalmente por critérios temporais de emprego e de salários – podem ser formas de manter a geração de valor e respetiva distribuição de rendimentos pelos trabalhadores, pois desta forma alimenta-se a roda virtuosa do rendimento das famílias pela manutenção do emprego, aumento do consumo e natural aumento do emprego.

Medidas e instrumentos que promovam a consolidação do nosso tecido empresarial, são por isso fundamentais. Temos que continuar a dar capacidade às nossas empresas de investirem e de correrem riscos, pois essa é a base de distribuição de riqueza da nossa Sociedade.

Muito se tem falado das pequenas empresas como sendo o alvo das ajudas a providenciar pelo Estado. No entanto, não nos podemos esquecer do papel absolutamente determinante que as grandes empresas têm como motor do restante tecido empresarial, na geração de empregos e na distribuição de riqueza pela Sociedade.

Não podemos ter receio suportar as grandes empresas, de aumentar a nossa escala com empresas de maior dimensão e mais resilientes. O Estado deve ser o primeiro promotor de ações que façam fazer chegar capital privado a estas empresas também.

Na crise de 2011, a internacionalização e as exportações tiveram um papel decisivo no ultrapassar da crise. Hoje, num mundo cada vez mais global e conectado, como aliás a própria pandemia o comprova, todos os países enfrentam dilemas semelhantes.

E nesse contexto, as primeiras empresas a poderem capitalizar da retoma, serão as médias e grandes empresas, levando consigo o ecossistema de pequenas empresas com as quais se relacionam.

O “novo normal” vai obrigar a que as empresas, para sobreviverem, terão de se tornar mais competitivas e capazes de oferecer soluções diferenciadoras. Tal só será possível com investimento em processos produtivos e em estruturas empresariais sólidas.

É por isso fundamental criar mecanismos de capitalização do nosso tecido empresarial, não apenas com soluções de endividamento, mas com o apoio à capitalização real de médio e longo prazo das empresas, permitindo desta forma a manutenção da geração de resultados que possam ser canalizados para o investimento em novos processos produtivos e de negócio, aumento do emprego e, retribuição adequada dos investidores.

Na China, a economia está já a mostrar sinais de recuperação, com a atividade industrial, medida através do PMI, a subir em março para valores acima das expectativas iniciais e com a quase totalidade das grandes e médias empresas a retomarem a atividade.

A solução implementada passou, tal como noutros países, pela quarentena e quebra da atividade empresarial seguida pela rápida retoma aos primeiros sinais de que a pandemia estava controlada.

As medidas de apoio e financiamento a empresas e famílias persistem, suportadas por injeções de capital público, mas o Governo chinês compreende que o relançamento da sua economia depende, em larga medida, da recuperação de outras economias e tem, por isso, mobilizado também recursos para apoiar outros países na recuperação da emergência médica.

Portugal não tem escala comparável à China, nem o nosso tempo de recuperação da pandemia nos permitirá assumir uma vantagem competitiva global. A palavra solidariedade tem sido usada com frequência, mas acredito que mais do que solidariedade, precisamos de união e ambição para nos superarmos.

Esta não é uma crise de alguns, é uma crise de todos, em que a solução estará diretamente relacionada com a capacidade de se construir um plano de ação com escala, transnacional e que eleve o papel fundamental que a Europa ocupa na economia mundial. Foi assim noutros momentos históricos e será assim mais uma vez.

Por isso, o nosso Governo e os nossos gestores devem ter consciência da enorme agilidade de decisão que vai ser necessária para “esperar o inesperado” e atuar em consonância para vencermos esta fase.

Lisboa, 06 de Abril de 2020

António Lagartixo

CEO | Managing Partner Deloitte

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