Joao Alves

João Alves: «O Nosso Portugal no pós-Covid-19»

Prever o futuro é intrinsecamente difícil, sobretudo quando se trata do rescaldo da maior crise económica e social alguma vez vivida, ou sequer imaginada, pela esmagadora maioria da nossa população. Para complicar ainda mais, escrevo esta minha antevisão na segunda feira de Páscoa, ou seja, no que parece ser o pico da crise e da incerteza. Contudo e felizmente, beneficio do pequeno conforto das circunstâncias também não possibilitam qualquer crítica ou contestação à minha visão, assente em evidência empírica. Uma pequena benesse para tamanho risco…

Começo com uma verdade de La Palice – vamos todos emergir desta clausura para encontrar um mundo bem diferente. As pessoas vão relacionar-se de forma diferente, vai haver alguma relutância em estarmos em grandes aglomerados de gente e em espaços confinados com estranhos, mas por outro lado vamos estar mais próximos dos nossos familiares e amigos, pôr em prática mais cidadania e passar a respeitar definitivamente o ambiente. As empresas vão evoluir do choque inicial e do modo atual de sobrevivência para as fases de adaptação à nova realidade – desenvolver resiliência e definir novos modelos de crescimento mais sustentáveis. O crescimento em si vai deixar de ser o Cálice Sagrado da gestão, mas sim um meio para atingir um fim.

Posto isto, vou desenvolver a minha visão do futuro em Portugal de forma sequencial – em primeiro lugar as mudanças já em curso e que permanecerão e, de seguida, as alterações e consequências que antevejo nos próximos 18 meses.

No imediato, vários fenómenos vieram para ficar porque ninguém vai querer voltar ao passado:

  • Relação com o trabalho – Estamos a assistir em vários setores à adaptação definitiva ao trabalho remoto que, curiosamente, tem-se revelado mais eficiente e eficaz. Estaremos menos tempo no local de trabalho, mas mais em contacto e de forma mais estruturada, com colegas e clientes. As reuniões virtuais começam à hora marcada e duram menos tempo. As empresas vão necessitar de menos espaço e equipamento físico e a força de trabalho vai estar mais feliz por finalmente ver concretizar-se a aspiração de um melhor “work-life balance”;
  • Digitalização – Neste último mês fez-se mais avanços no campo da digitalização das nossas vidas do que nos últimos 5 anos. Para alem das aulas escolares digitais em tempo real, passou a ser viável fazer consultas médicas por Skype e normal apresentar receitas digitalizadas ou por código de receita via sms na farmácia. Várias “impossibilidades jurídicas” como assembleias gerais virtuais, assinaturas digitais de declarações e documentos legais passaram milagrosamente a ter enquadramento legal;
  • Consciência social – Todas as noites entram-nos pela casa dentro imagens de altruísmo por parte dos prestadores de serviços de saúde, policiamento, pronto socorro e apoio no fornecimento e entrega de bens, o que nos fará reequacionar a valorização social (e eventualmente a recompensa monetária) deste(a)s verdadeiro(a)s heróis versus por exemplo, as estrelas desportivas. Apesar do debate sem sentido em curso neste momento, é para mim evidente que até ser descoberta a vacina contra o Covid-19, vamos todos andar em público de máscara – para além de me fazer todo o sentido não inalar os micróbios da pessoa ao meu lado, é uma lição que devemos retirar das populações asiáticas que aprenderam isto há anos a custo próprio;
  • Consumismo – Nunca antes tantos sobreviveram tão bem com tão pouco durante tanto tempo. Esta crise trouxe para os portugueses um sentido geral de empobrecimento (e para muitos o empobrecimento de facto, infelizmente) e com isso uma dose de sensatez quanto ao consumo – sobretudo ao consumo financiado. No futuro, vamos pensar melhor antes de comprar ou consumir.

A jusante, prevejo que a médio prazo iremos todos passar por um período de dificuldades com ecos da crise financeira de 2008:

  • Recessão económica – é evidente que 2020 será um ano de recessão, de dimensão dependente da duração do fecho da economia. Já li sobre vários analistas e entidades credíveis que estimam uma descida do PIB de 2% por cada mês que estivermos sem produzir. Concordo com esta abordagem em função do tempo de paragem, assim como com a tese de que os países que se fecharam cedo (como Portugal) sofrerão menos danos económicos a prazo;
  • Recomeço da economia – é fundamental abrirmos a economia logo que possível para voltarmos ao trabalho e começarmos a nossa recuperação económica. Penso que esta abertura, que poderá ter início durante o mês de maio, será gradual e controlada. Assim sendo, podemos voltar ao crescimento económico na ordem dos 1%-2% (não linear, mas em dinâmica de pára-arranca devido ao impacto setorial diferenciado) já em 2021. Alguns setores jamais voltarão ao que eram pré-Covid-19 e por isso haverá um aumento do desemprego, que alguns estimam em 10%-12% em 2020 e descendo para a ordem dos 8% em 2021;
  • Nova dinâmica nas empresas – até haver uma arma eficaz contra o Covid-19 as empresas terão que adotar estratégias de defesa organizacional. Haverá um novo racional de trabalho – por células. As empresas terão que planear as operações rigorosamente e, em cada momento, saber quem está nas instalações e limitar a movimentação dos seus colaboradores. Haverá sempre alguém em trabalho remoto. Na eventualidade de haver uma infeção têm que saber exatamente qual a célula a colocar em quarentena sem comprometer a saúde de toda a sua força de trabalho nem o funcionamento da empresa. Se a segunda onda de Covid-19 chegar no próximo outono/inverno e ainda não houver a vacina, as nossas empresas e as infraestruturas do estado estarão mais preparadas;
  • Nova filosofia de gestão – esta crise obrigou muitos gestores a uma reflexão profunda. Creio que muitos irão reorientar as suas empresas para um posicionamento mais defensivo (pelo menos durante uns anos): consolidação em vez da expansão, resiliência em vez da eficiência, proteção em vez da promoção. Antecipo mais economia de qualidade e menos economia de crescimento;
  • Vantagens competitivas – Portugal terá uma oportunidade para jogar as suas vantagens competitivas. A relação preço-qualidade dos nossos produtos e serviços será uma alternativa interessante para empresas multinacionais que durante a crise viram os seus fornecimentos e canais de distribuição interrompidos por estarem dependentes de uma só fonte ou uma só geografia (por exemplo na Ásia). O turismo em Portugal voltará porque Portugal vai continuar a oferecer o que oferecia antes, mas agora reforçado pelo selo de qualidade de sermos um país ainda mais seguro e confiável porque soube lidar com a crise e cuidar de quem cá vive de forma admirável.

Lisboa, 13 de abril de 2020

João ALves

EY Country Managing Partner

Mais Notícias