Jorge Vieira Jordão

Jorge Vieira Jordão: «Breves reflexões sobre a pandemia em curso»

A poucas semanas da declaração oficial pela OMS, em 11 de março último, de uma pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, vemo-nos a braços com uma recessão tão rápida e profunda como não há memória. Dir-se-ia, parafraseando Paul Krugman em tweet recente, que a economia mundial entrou num “estado de coma medicamente induzido do qual dificilmente sairá sem lesões” ou, acrescentaríamos nós, sem ter de equacionar, pelo menos, algumas transformações estruturais, como se vai já discutindo em diversos meios.

Com efeito, creio ser a altura de nos interrogarmos, por exemplo, por que levámos tanto tempo a perceber o nível alucinante da rapidez de contágio deste vírus, da necessidade imperiosa de isolamento para conter e, posteriormente, mitigar ou suprimir a sua progressão ou das medidas de política económica de apoio ao tecido empresarial capazes de preservarem, durante o período de lockdown, o emprego e a rapidez de recuperação da economia. A estas interrogações valerá, porventura, também a pena questionar a excessiva dependência de cadeias de fornecimento centradas fora da Europa e dos EUA relativamente a produtos vitais para o combate a este tipo de crises sanitárias, para já não falar numa orientação estratégica da investigação laboratorial e farmacêutica completamente alheada das preocupações de se poder fazer frente a uma pandemia destas na esteira dos surtos, ocorridos nos últimos vinte anos, de SARS-CoV-1, da gripe A , MERS ou, mais recentemente, de ébola (parece que Bill Gates afinal tinha razão numa TED talk, em Março de 2015, ao afirmar que o mundo não estava preparado para enfrentar uma pandemia…).

Mas, como em todas as situações de risco, deveremos sempre proativamente procurar também oportunidades, parece-nos muito relevante o grande impulso que fomos ´obrigados´ a dar à transformação digital nas nossas organizações para minimizar os efeitos do lockdown através, por exemplo, do comércio eletrónico, do teletrabalho, da telemedicina ou do ensino à distância. Efetivamente, a aposta no digital permitirá de forma generalizada desafiar o ´dom da ubiquidade´, possibilitando melhorias prodigiosas ao nível da produtividade e simultaneamente a compressão de custos, a par de um reforço significativo do nível de competitividade das nossas organizações. Se a tudo isto associarmos também o estímulo à inovação – de que são exemplo uma miríade de novos produtos/serviços que estão surgindo no mercado – será que poderemos estar em face de uma autêntica mudança de paradigma na gestão das nossas organizações?

Lisboa, 06 de abril de 2020

Jorge Vieira Jordão

Presidente da Confederação dos Serviços de Portugal

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