José Epifânio da Franca

José Epifânio da Franca: «Resiliência»

Resiliência! Conhecem-na bem investidores e empreendedores, sabem que transporta a capacidade de superação, de recuperação de adversidades, sabem que significa a capacidade de gerir a mudança face a choques e desastres. Resiliência é condição no indivíduo, na família, nas empresas e organizações, nos ecosistemas e nos países, nas regiões, no mundo!

1 de Novembro de 1755. Um terramoto, um tsunami, múltiplos incêndios arrasaram uma cidade, não se sabe ao certo quantas mortes, certamente dezenas de milhares de uma população de cerca de 200 mil. A destruição de vida e de propriedade foi inimaginável, a dor, o desespero, e a miséria, sem âncora que agarrasse a vida nem luz que guiasse na escuridão, escreviam o que na história não se aprendia.

Recomeçou-se, reconstruiu-se, reergueu-se, corrigiu-se o que a memória obrigava a aprender e com a resiliência que estava lá, inerente à condição humana.

6 e 9 de Agosto de 1945. Duas bombas atómicas dizimam entre 130 e 220 mil vidas, reduzem a escombros duas cidades, ajoelham um povo, deformam homens, mulheres e crianças como nunca antes a história tinha visto. A dor, o desespero, a miséria não tinham na história réplica que desse respaldo, só a sentiu quem estava na geografia errada no tempo errado. Recomeçou-se do nada, da vida arrasada e da propriedade destruída, tudo renasceu, dia após dia, semana após semana, ano após ano, até ao ano que agora corre e por muitos mais anos ainda.

O povo que se reergueu, as empresas que recomeçaram, a economia que se regenerou foram resilientes, porque a resiliência estava lá, inerente à condição humana.

26 de Dezembro de 2004. Um tsunami varre mais de 220.000 vidas, a destruição de propriedade e de sustento é inimaginável, a dor, o desespero, a miséria sucedem-se a um ritmo avassalador. A dimensão da tragédia também não tem referência na história e também só a sentiu quem estava na geografia errada, no tempo errado. Não havia teses, nem livros nem professores que pudessem ensinar o que a seguir aconteceria, a vida foi reaprendida dia após dia, a cada dia que passava.

As populações que recuperaram a vida e o sustento, a economia que se reconstruiu na forma e no tempo foram resilientes, porque a resiliência também estava lá, inerente à condição humana.

Sabemos que outras tragédias de dimensões inimagináveis aconteceram e que os impactos infligidos não tinham nem modelos nem estatísticas que pudessem ensinar, que iluminassem e oferecessem direcção. Mas também sabemos que a devastação de vidas e de propriedade foi, sobretudo, localizada, sentiu-a quem o infortúnio quis que estivesse no lugar errado, no tempo errado. As populações que renasceram, os povos que se reergueram, as economias que se reconstruíram foram resilientes, porque a resiliência esteve sempre lá, inerente à condição humana.

Os tempos que hoje se vivem também não têm relatos na história, não porque estejam a acontecer ou venham a acontecer mais perdas de vidas ou porque a destruição de propriedade seja mais arrasadora, mas porque, como nunca antes na história, a dimensão do impacto é global e afecta (quase) tudo e (quase) todos, esteja-se onde se estiver, faça-se o que se fizer.

O que tem e terá sempre réplica na história, qualquer que seja a história, é a resiliência inerente à condição humana. É com ela que indivíduos, famílias, empresas e organizações, nos ecossistemas e nos países, nas regiões, no mundo, se vão reerguer, reconstruir, regenerar, reinventar, corrigir o que a memória não deixará esquecer.

A nova vida já aí está em preparação, quiçá em sonhos, pela resiliência inerente à condição humana que, no final, a história dirá colectiva. Mas hoje sabemos bem que a veremos acontecer primeiro indivíduo a indivíduo, depois, família a família, empresa a empresa, país a país, até que o mundo dela fale pela história que ficar escrita.

Lisboa, 06 de abril de 2020

José Epifânio da Franca

Professor Catedrático no IST e Partner da Keensight Capital

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