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José Reino da Costa: «Portugal Pós-Covid 19»

Algumas lições a tirar

Os efeitos da pandemia que devastou o mundo, nomeadamente, as severas medidas de distanciamento social implementadas pela maioria dos países para conter o surto do Covid 19 e salvar vidas, provavelmente causaram a maior crise económica dos últimos cem anos e transformaram drasticamente os nossos hábitos de trabalho, sociais, de consumo e actividades de lazer, expondo-nos a novos desafios, alguns temporários, mas provavelmente outros, devido ao seu efeito disruptivo e às lições que nos deram, poderão ter vindo para ficar, funcionando como um acelerador de mudanças algumas delas já em curso, outras em fases experimentais, mais ou menos tímidas e outras mesmo totalmente novas.

Do ponto de vista socioeconómico, a pandemia fez-nos recordar aspectos muito importantes (e alguns muito distintos) da nossa vida, tais como a importância da família, dos amigos, do equilíbrio, da poupança, do papel do serviço de saúde, dos serviços de segurança, das telecomunicações (sem as quais hoje o mundo estaria paralisado) e, também, que as pandemias, tal como a economia, são cíclicas e por isso, devemos fazer como as formigas e não como as cigarras, ou seja, a nossa sustentabilidade individual, das empresas e do mundo requer um pensamento de médio e longo prazo, que inclua uma análise dos riscos, de forma a nos podermos preparar antecipadamente.

Responder a uma crise desta natureza requer uma actuação rápida no curto prazo com uma mobilização muito significativa de recursos que permita manter os serviços essenciais em funcionamento e conservar o melhor possível as empresas e o emprego.

Portugal, como é natural, será também severamente afectado e por isso necessitará de injectar dinheiro na economia em valores que poderão rondar 15% do PIB ou seja, cerca de metade do valor da assistência da troika em 2011 que foi na altura de 78 mil milhões de euros.

Sou adepto dum Estado curto, seco e eficaz, concentrado nos temas de correcção dos desequilíbrios que as economias de mercado não conseguem resolver e na regulação e fiscalização das actividades económicas. Ou seja, um Estado focado no que é essencial para o funcionamento do mercado, com uma actuação baseada em princípios claros, simples e transparentes.

A este propósito julgo que, quer a crise financeira de 2007/2008, quer a actual pandemia, vieram demonstrar a importância de termos um Estado capaz de estabilizar a economia, em momentos críticos, em que a única solução passa pela mutualização dos impactos no curto prazo, tal como uma companhia de seguros (funcionando o Estado como uma espécie de seguro para riscos catastróficos), com uma intervenção rápida e eficaz, mas que não ponha em causa os fundamentos duma economia de mercado e por isso mesmo, de curta duração. Ou seja, em contextos como o actual em que os choques não são antecipáveis mas são de grande impacto (“Black Swans”), e portanto não seguráveis pelos métodos tradicionais, somente os Estados podem oferecer um último recurso de garantia às economias e aos cidadãos.

Obviamente que para isso é necessário que o Estado tenha ele próprio ao longo do tempo um comportamento de formiga, com contas positivas, com poupança, com um nível de endividamento adequado que lhe permita intervir nestes momentos.

Portugal como sabemos é um país vulnerável, com um crescimento económico modesto, em termos médios, desde que aderimos ao euro, com débeis perspectivas futuras de crescimento e com uma economia com pouca margem de manobra nas áreas fiscal e monetária. Na área fiscal devido ao elevado peso da dívida pública, e que se vai agravar agora para fazer face à pandemia, e na área monetária, pelo facto de não controlarmos a política monetária (não termos moeda própria) e por isso não podermos desvalorizar a moeda, solução normalmente eficaz, apesar do empobrecimento geral que essa medida implicaria. Resta-nos assim, recorrer às entidades supranacionais, União Europeia, FMI, entre outras, para nos socorrerem, tal como tem acontecido ciclicamente.

Um bom exemplo de um País que atempadamente teve um comportamento de formiga e constituiu um fundo soberano robusto é a Noruega, (bem sei que tem petróleo e Portugal não tem). Este facto permite-lhe agora, como anunciado recentemente, utilizar cerca de 4% do fundo soberano para apoiar uma economia duplamente afectada, pelo novo coronavírus e pela baixa do preço do petróleo, sem ter que endividar-se.

E depois do Covid 19 – A que mudanças iremos assistir

Para além dos temas referidos atrás, que julgo merecem aprofundamento, o contexto actual requer que Portugal reflicta sobre o (re)posicionamento dos seus sectores estratégicos.

Admito que seja consensual que o crescimento económico em Portugal terá sempre que passar pela exportação de produtos e serviços. Sendo um País sem recursos naturais relevantes (petróleo, gaz, ouro, etc.), e sem escala para sermos competitivos na agricultura e noutros sectores, resta-nos o Turismo como sector onde os nossos recursos naturais permitem fazer a diferença, e cuja importância, pelo seu peso no PIB nacional e no emprego, faz com que seja um sector muito importante e com o qual temos que contar no futuro independentemente do impacto da pandemia que necessariamente irá implicar ajustamentos importantes.

Noutros sectores, já há algum tempo que Portugal não consegue competir internacionalmente com base na mão-de-obra barata, o que também não deu grandes resultados no passado, e por isso, o caminho só poderá ser o da especialização baseada no conhecimento e elevados níveis de formação da população.

Acredito verdadeiramente que a qualidade do Capital Humano, em resultado de um elevado nível de Educação é o principal factor responsável pelo crescimento económico e consequentemente pelo desenvolvimento das nações. Ou seja, a recuperação da economia Portuguesa e o seu crescimento futuro dependerá em grande medida do investimento que fizermos na formação das pessoas, com um cariz fortemente tecnológico e digital, para que elas se adaptem aos novos desafios que temos pela frente.

Dito isto, e sem pretender ser exaustivo, considero que Portugal deveria apostar, ou continuar a apostar, nos seguintes sectores: Educação (formação do Capital Humano), Investigação e Desenvolvimento, Saúde de alta qualidade (turismo de saúde), Tecnologias da Informação, Indústria de capital intensivo, de alto valor acrescentado e com elevada incorporação de tecnologia (exemplos: farmacêutica, biotecnologia e maquinaria) e Turismo.

Não sendo o objectivo deste artigo debruçar-me sobre o muito que há a dizer sobres estes sectores, irei apenas deter-me sobre dois aspectos que o confinamento a que a pandemia impôs a milhões de pessoas, trouxe para a ordem do dia. Trata-se da Transformação Digital e do Teletrabalho.

Em relação à Transformação Digital, é um tema que já está conhecer uma clara aceleração e vai atingir um maior desenvolvimento em temas como a forma como comunicamos, socializamos, trabalhamos, fazemos compras, acedemos à informação, etc.

Sobre estes aspectos, irei dar dois exemplos que mostram claramente as mudanças em curso. Em primeiro lugar, o comércio electrónico. Se é certo que já havia diversas plataformas de comércio electrónico com muitos clientes, o que aconteceu com o confinamento foi uma autêntica explosão.

Como exemplo mais paradigmático, a Amazon anunciou em Abril ter recrutado mais de 100 mil colaboradores para fazer face ao aumento da procura.

Em Portugal assistimos também ao fortíssimo crescimento do comércio electrónico, nomeadamente nos supermercados, cujo modelo de negócio mudou para pedidos online e entregas em casa. A corrida aos supermercados online foi de tal ordem que as cadeias de distribuição foram postas à prova, e os níveis de serviço degradaram-se significativamente. Algumas cadeias de distribuição chegaram a ter prazos de entrega superiores a 3 semanas, e viram-se “forçadas” a reforçar as suas equipas. Vários negócios que não estavam (ainda) orientados para este canal de venda rapidamente se adaptaram. Julgo que esta tendência será para ficar. Mesmo que não com a intensidade actual, a conveniência do serviço será certamente um factor de fidelização dos clientes.

Outro sector onde o tema da transformação digital estava já em passo acelerado, é o sector financeiro. Muito por causa das chamadas fintechs que começaram a pressionar os modelos de negócio da banca, em particular da banca de retalho, a generalidade dos bancos pelo mundo fora tinham já como prioridade diversos projectos de transformação digital essencialmente com duas componentes: a primeira, a transformação da experiencia do consumidor, muito assente no mobile, na internet e em todos os canais digitais, permitindo aos clientes o acesso ao banco de uma forma muito conveniente em qualquer parte e a qualquer hora; a segunda, mais virada para dentro, mas sempre com o objectivo de servir melhor os clientes, orientada para os processos internos, com robótica, workflows, inteligência artificial, cloud, big data, blockchain, etc. Se é certo que este processo já estava em andamento, o confinamento imposto pela pandemia acabou por ser um acelerador tanto na relação com os clientes como nos processos internos. No relacionamento com os clientes porque naturalmente, os clientes estando fechados em casa passaram a usar com muito mais intensidade os serviços bancários online. De facto o que se assiste é um aumento significativo daquilo que se chama na gíria bancária os “clientes digitais”. Já em relação aos processos internos, só o facto de repentinamente os bancos se verem confrontados com a necessidade de colocar a maioria dos trabalhadores em teletrabalho trouxe um conjunto de desafios, ao nível do acesso remoto aos sistemas “core” dos bancos, com temas complexos ligados à infra-estrutura, à velocidade de acesso, à segurança cibernética, etc., o que fez com que todo o processo de transformação digital em curso tivesse também que ser acelerado. Por outro lado, a pressão no negócio dos bancos, fruto da queda da actividade económica e no mais que provável aumento das imparidades pelo crédito mal parado, obriga a um renovado esforço na redução de custos que só se conseguirá com uma maior eficiência proveniente da transformação digital e automatização dos processos internos.

Ou seja, o actual cenário tornou clara a necessidade das empresas acelerarem o processo de transição para o digital e de transformação dos seus negócios sob pena de se poderem tornar irrelevantes em pouco tempo. Quanto aos clientes, que se tornaram utilizadores do digital (compras, serviços bancários, etc, etc) por não existirem na verdade outras alternativas, esta situação ajudou-os (talvez para sempre) a ultrapassar o desconhecimento, resistência à mudança e também alguma desconfiança que ainda tinham sobre o comércio/serviços online.

Finalmente outra questão provocada pela pandemia foi o Teletrabalho. As organizações foram forçadas a mudar para modelos de Teletrabalho quase da noite para o dia para poderem continuar a operar.

Este tema já vinha sendo discutido, e testado em alguns casos, mas de facto ainda não tinha ganho tração na generalidade das indústrias. É certo que o tema não é homogéneo de indústria para industria nem de trabalhador para trabalhador.

Dificilmente conseguimos imaginar um agricultor, um motorista, um empregado de mesa, um pintor, um empregado duma linha de montagem de automóveis, e por aí fora, a trabalhar de casa. No entanto, há profissões/industrias que poderão vir a ter alterações muito significativas.

Por exemplo, a indústria da educação, em especial a educação universitária e de negócios. A situação que vivemos actualmente e para a generalidade dos temas, mostrou que é perfeitamente possível, e com custos muitíssimos mais baixos, e também com a possibilidade de dar acesso a muito mais alunos, ter-se uma eficácia semelhante à da formação com presença física.

Outro exemplo é o da indústria de conferências com forte impacto no sector do turismo de negócios. Já há algum tempo me questionava se não estávamos já numa fase de excesso de oferta. A participação em conferências sobre os mais variados temas, tornou-se num negócio, na maioria das vezes, com retorno duvidoso para os participantes face aos custos incorridos, tempo, deslocações, estadia e inscrição. Pois a situação actual veio demonstrar (o que já era evidente) que é perfeitamente possível ter acesso aos discursos, papers e debates de especialistas nas mais diversas áreas sem a necessidade da deslocação aos locais das conferências. Perde-se o aspecto lúdico e o networking, e também, perde a indústria do turismo de negócios.

Por outro lado, também é provável que pessoas mais qualificadas e com salários mais altos sejam melhores candidatos a trabalhar de casa, porque naturalmente terão funções em que o valor acrescentado é mais importante do que a quantidade de trabalho.

No entanto, a pandemia forçou-nos a viver com esta situação, que nos trouxe novos desafios de gestão da produtividade, qualidade do trabalho, níveis de serviço, espirito de equipa, cultura de empresa, para além do aspecto social, de interacção entre as pessoas, de comunicação e de contacto pessoal que são também muito importantes para a felicidade das pessoas.

Porém, e apesar de algumas empresas (de serviços, na sua maioria) terem conseguido reagir e continuado a trabalhar (remotamente), percebe-se que há ainda uma série de dificuldades a vencer no regresso a este novo normal (em que o teletrabalho terá um papel como nunca teve) e adivinha-se que as empresas que melhor se saibam organizar neste capítulo terão vantagens competitivas.

Ou seja, haverá certamente um número de profissões para as quais a modalidade de trabalho à distância, que implementámos por necessidade, será mais eficiente, e trará grandes benefícios de custo para as empresas e de qualidade de vida para as pessoas, e será certamente algo que as organizações irão olhar como um elemento central da organização do trabalho. E também, com esta experiência, de certa forma forçada, é normal que muitas pessoas passem a valorizar muito mais o seu tempo, a proximidade, a sua casa, o consumo local e de conveniência, o seu lar e o campo. Importa no entanto referir que, a utilização futura desta modalidade de trabalho implicará ajustamentos significativos às leis laborais.

Em conclusão, os efeitos da pandemia provocados por uma decisão politica de minimizar as perdas humanas em troca pela economia, tornaram mais claras as fragilidades da economia Portuguesa, dando-nos pistas de que o governo, as empresas e as pessoas em geral, deverão ter um pensamento de médio e longo prazo, de forma a todos serem mais resilientes, mais ágeis e mais adaptáveis às vicissitudes do curto prazo.

Por outro lado, é o momento, novamente, de reflectirmos sobre os sectores estratégicos para o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável de Portugal, com a consciência que tal como os ciclos económicos, também os “black swans” são cíclicos apesar de imprevisíveis e, por isso, é importante, os estados, as empresas e as famílias, terem permanente almofadas que permitam acomodar momentos menos bons.

Finalmente, entre muitas lições que podemos extrair da pandemia do Covid 19, reter o tema da digitalização das nossas vidas, de novas formas de trabalhar e de um “novo” equilíbrio socioeconómico que se espera venha contribuir para um mundo mais sustentável.

Lisboa, 21 de maio de 2020

José Reino da Costa

Vice-Chairman and CEO at Millennium BIM and Vice-Chairman of Seguradora Internacional de Moçambique (Impar)

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