Manuel Bento Ferreira

Manuel Bento Ferreira: «Inclinar a curva da recuperação»

Nestes dias inesperados de uma Quaresma diferente e em que a maioria de nós, que não está na linha da frente, procura dar o seu contributo pelo distanciamento social para aplanar ou, se possível, esmagar a curva da pandemia, vamos perspetivando progressivamente os impactos e as tarefas hercúleas que teremos pela frente em Portugal e no mundo.

A crise económica e social resultante de um fecho tão brutal da economia será necessariamente aguda mas compete-nos a todos nós que seja também curta. Teremos todos juntos, nessa fase, que acentuar a inclinação desta outra curva da economia. A capacidade de liderança forte e entusiástica, inclusiva, mas com clareza e solidez financeira e focada em especial na recuperação do emprego e na gestão do conflito social e geracional será determinante.

As alterações no curto prazo estarão necessariamente, e bem, muito focadas na gestão imediata desta crise, mas as alterações estruturais provocadas por este evento serão também de grande magnitude.

Em primeiro lugar, nas alterações dos equilíbrios globais, no acentuar da relevância da China, no acelerar da inexorável redução do peso do petróleo como fonte de poder e, em especial, na criação de um momento de verdade para a zona euro, forçada a uma decisão mais rápida sobre o casamento ou separação entre o Norte e o Sul.

Por outro lado, esta crise aguçou o engenho de uma forma evidente nas capacidades digitais, na reprovação social do desperdício, na economia circular, no ênfase na saúde e qualidade de vida, na relevância da ciência e da investigação e globalmente na sustentabilidade como essência do crescimento.

Os impactos em Portugal não serão muito distintos do resto da Europa do Sul. Teremos que saber aproveitar os benefícios de uma localização geográfica e climática privilegiada, criar os incentivos adequados à evolução demográfica e particularmente aos fluxos migratórios favoráveis e, principalmente, continuar a construir os skills humanos de vanguarda neste processo transformacional. Voltaremos a usufruir do turismo  como importante alavanca económica uma vez restabelecida a confiança no contacto social, mas devemos também colocar mais ênfase a desenvolver capacidades de excelência na saúde, na educação superior, na investigação, no desenvolvimento digital e empresarial, no aproveitamento equilibrado e sustentável dos recursos e muito especialmente do mar.

Os próximos meses serão de procura de um equilíbrio entre as tensões sociais e geracionais resultantes da fortíssima crise económica pontual e a aceleração das tendências transformacionais. Um espírito de liderança determinado e conjunto na afirmação de valores positivos será determinante no melhor aproveitamento desta evolução e no encurtar da diferença entre o PIB e a efetiva utilidade económica sustentável . Creio que o encurtamento desta diferença será a chave para conseguir inclinar a curva da recuperação da economia, também em termos de PIB, com tanto foco como estamos a aplanar esta curva atual da pandemia.

Lisboa, 6 de Abril 2020

Manuel Bento Ferreira

Managing Director, BBVA

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