Manuel Lopes da Costa

Manuel Lopes da Costa: «O regresso»

Finalmente voltámos todos ao escritório. Até pareceu estranho subir no elevador, olhar para o hall de entrada. Olhar para os detalhes. Tudo coisas que nunca tínhamos reparado e que agora sobressaíam.

Tudo estava como tínhamos deixado, mas após algumas horas de trabalho começou a fazer falta alguns objetos, alguns papéis que estavam?…. Em casa, onde nunca tinham estado antes. O local de trabalho era o mesmo, mas a sensação de pertença não. Tínhamo-nos habituados a exercer a nossa profissão a partir de outro lugar, mais confortável, mais próximo.

Chegou a hora de almoço, essa hora para muitos sagrada e que representava sempre o ponto alto da camaradagem entre colegas. Só que desta vez, quando chegou, uma boa parte já tinha “trincado alguma coisa”, outra já tinha ido mais cedo e a restante dizia estar habituada a comer mais tarde. As sagradas 13:00 deixaram de ter o mesmo significado. Deixaram de ser o princípio do período mais comum e desejado do dia entre todos. Não obstante, descemos à rua e vamos ao nosso restaurante preferido, ter com o Sr. Abílio, de quem já temos saudades. Só que? Miséria!… O Sr. Abílio não está aberto. Aproximamo-nos da porta e lemos num papel colado no vidro “Encerrado permanentemente por motivo de falência”. Ficamos petrificados, nem queremos acreditar, e enquanto caminhamos tristes a caminho do restaurante do Sr. Faustino, pensamos no Sr. Abílio, na sua família, no seu negócio que já existia há muito tempo. Pelo caminho vemos papéis semelhantes na vitrine do que fora anteriormente um café, uma agência de viagens, uma rent-a-car e dois hotéis (desses pequeninos, familiares que ultimamente até pareciam serem de luxo). Chegamos ao restaurante do Sr. Faustino, está aberto. Lá dentro o Sr. Faustino triste guarda tudo. Explica que tem de deixar as instalações até amanhã. Que a vida foi madrasta e que ele também, ao fim de 30 anos de estar no bairro tem de fechar. Seis meses de quarentena foram demasiado. Não conseguiu resistir apesar dos lay-offs simplificados e das promessas de ajuda aos sócios gerentes de pequenos estabelecimentos bem como da isenção de pagamento de rendas comerciais que não chegaram a tempo. Conformados, damos uma palavra de conforto ao Sr. Faustino e entre ir a um “fast-food”, única coisa certamente aberta e ir a casa trincar qualquer coisa como fizemos nos últimos 6 meses escolhemos esta última alternativa. Uma vez em casa pensamos: Porquê voltar esta tarde para o escritório se posso fazer o meu trabalho desde aqui como tenho vindo a fazer ultimamente? Então é isso, ficamos por casa e ligamo-nos via “tele-trabalho”. E se calhar amanhã nem vou ao escritório, claramente o que faço lá, também posso fazer daqui. E de forma mais confortável, evitando trânsito e chatices matinais. Bem-vindo ao novo normal.

Lisboa, 06 de abril de 2020

Manuel Lopes da Costa

Country Managing Partner at BearingPoint Portugal

Mais Notícias