Paulo Barradas Rebelo

Paulo Barradas Rebelo: «Portugal Pós-Covid: Um Contributo Para a Reflexão»

Estaremos a chegar ao fim de uma civilização? Churchill disse uma vez: “a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros“. Esta frase, de todos conhecida, serve para ilustrar que este regime fez mais do que nenhum outro pela melhoria da qualidade de vida das pessoas no Mundo. Ainda assim, temos que fazer mais e melhor e essa é uma responsabilidade cada vez mais de toda a sociedade e não só da classe política.

Esta frase também se pode usar a favor da economia de mercado. A economia de mercado que temos hoje não é a ideal e muito menos perfeita, mas existe alternativa? Penso que não, mas existe a possibilidade de a melhorarmos, de a aperfeiçoarmos por via de uma melhor regulação, da observância dos princípios e valores humanos, da boa governação e, sobretudo, com um combate severo à corrupção.

Construímos em todo o mundo ocidental, um paraíso ao cimo da terra, pelo menos comparado com outras zonas do Globo em que os rendimentos são inferiores a 1€ por dia, pleno de direitos e com cada vez menos deveres, com saúde gratuita, baixas médicas, reformas, esperança média de vida em crescendo e a melhor qualidade de vida de sempre.

É, simultaneamente, uma sociedade que começa a dar sinais claros de insustentabilidade em várias áreas, desde logo ambientais, sociais e económicas, com uma grande concentração da riqueza num cada vez menor número de pessoas. O fosso entre os mais ricos e os mais pobres aumenta cada vez mais. Em 2018, os 26 mais ricos do mundo tinham em seu poder tantos recursos como os 3,8 mil milhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da população mundial e esta tendência tem vindo a aumentar de ano para ano em vez de diminuir. A grande redução do número de pessoas a viver em pobreza extrema é uma das maiores conquistas do último quarto de século, mas o aumento da desigualdade está a pôr em causa este inequívoco progresso.

Também no ambiente, para além de termos de enfrentar o desafio das alterações climáticas e de contrariar a tendência para a extinção de espécies ameaçadas, precisamos igualmente de travar as alterações biológicas globais e de proteger as redes alimentares na natureza, ou arriscamo-nos a assistir ao colapso de ecossistemas inteiros.

Como parar estas tendências? São certamente os grandes desafios desta geração.

Segundo o Secretário-Geral da OCDE, a pandemia da Covid-19 é o terceiro choque económico, financeiro e social do século XXI, depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos e da crise financeira global de 2008. Esta pandemia está já a superar as piores previsões económicas, tendo sido já pedido um esforço coordenado de governos e bancos centrais.

Esta é uma enorme oportunidade para refletirmos em conjunto. Problemas globais resolvem-se com soluções globais! Pois temos mais uma vez problemas que extravasam fronteiras e que já não se resolvem com a fórmula do cada um por si.

Portugal, com esta crise, foi atingido nas suas maiores fragilidades, economia, sistema de saúde e liderança. As piores previsões na redução do PIB deste ano apontam para um valor inferior ao de 2016 e assim num só ano perdemos tudo o que ganhámos em quatro.

Será o atual Governo capaz de liderar a crise que se avizinha? Com medidas como dar tolerância de ponto nos passados dias 9 e 13, no auge da pandemia e em pleno estado de emergência; como pagar muito acima do Layoff aos trabalhadores da – não se sabe se nacionalizada, mas falida – TAP, com o dinheiro dos contribuintes e em pleno desrespeito com o sector privado, que não pode fazer o mesmo. Pagar teletrabalho a funcionários púbicos, quando este não é possível desempenhar em casa. E mais haveria para dizer… Será este o sinal de liderança que precisamos? Suportarão as finanças públicas tal descontrolo?

Face ao elevado endividamento do país, das empresas e das famílias, seria bom que a ajuda externa por parte da União Europeia não passasse por criar mais dívida. Tivemos nos últimos dias um grande protagonismo do Eurogrupo, enquanto deveria ser a Comissão Europeia a estar na linha da frente e a tomar decisões políticas ao invés de serem os ministros das finanças.

Será também importante referir que esta crise que se avizinha é duradoura. E, como tal, depois de revistas as medidas de emergência tão bem seguidas pelos portugueses, vai ser necessário implementar medidas que permitam continuar a garantir segurança das populações (e sobretudo as de maior risco), mas ao mesmo tempo que permitam dinamizar os vários setores da economia, da indústria aos serviços. Tais medidas têm de ser orientadas para garantir a viabilidade das empresas no curto e médio prazo, e não para apoiar o desemprego.

Os próximos meses serão tempos de dificuldade e fragilidade, mas porque nos sentimos agora mais próximos e mais solidários, será uma excelente oportunidade para avançarmos com uma campanha de compra de produtos nacionais verdadeiramente motivadora, de grande visibilidade e apoiada por todos os media.

O Mundo precisa cada vez mais de líderes com ousadia para enfrentar todas as situações, mesmo as mais difíceis, com coragem, responsabilidade e esperança, assumindo critérios de racionalidade, solidariedade, procura constante do bem comum, desenvolvimento económico e uma consequente melhor distribuição de riqueza.

Lisboa, 06 de abril de 2020

Paulo Barradas Rebelo

CEO | Bluepharma

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