Salvador da Cunha

Salvador da Cunha: «A economia tem de dar tempo à vida»

A economia tem de dar tempo à vida: mas depois vem um super salto tecnológico.

O que estamos a viver é um paradoxo entre tempo para a saúde e tempo para a economia. A vida de uns, em detrimento da não deterioração da vida para outros. É um paradoxo impossível? Diria que não. O óbvio, na minha opinião, é que solidariamente todos temos de ceder na nossa economia para que muitos não cedam a sua própria vida.

Assim sendo, o início da recuperação da economia só é possível quando os sistemas de saúde estiverem preparados para absorver mais doentes. Quando o pico estiver para trás, e o fluxo de entradas nas urgências dos hospitais seja inferior ao fluxo de saídas de doentes. E isto demora tempo. O tempo bastante para que a retoma seja em forma de U e não em forma de V.

Mas ainda assim, sem vacina para o Covid19, penso que o regresso a uma semi-normalidade e uma retoma da atividade da população ativa de menor risco só pode ser feita se se mantiver o recolhimento obrigatório das populações de maior risco. Mas eu sou um optimista e acho que tudo vai ser mais rápido do que estamos coletivamente a considerar.

Sem colocar de parte a hipótese de podermos estar no início de uma depressão, ou uma recessão mais dura, o facto é que um mundo despreparado para lidar com uma pandemia de proporções históricas, foi apanhado numa situação particular de confluência de tecnologias que nos poderão retirar desta crise a uma velocidade tão grande como a que nos afetou… a minha opinião é que serão necessários poucos meses para “estancar a ferida”, poucos meses para ver como saímos da crise e poucos meses para recuperar totalmente. E a recuperação será exponencial. Mas será também implacável com as empresas que não estiverem preparadas para grandes velocidades.

O que nos vai ajudar a sair da crise:

Numa primeira análise, estamos todos mais digitais. Desde o avanço forçado do teletrabalho, ao avanço dos processos de digitalização das empresas, da utilização de ferramentas de colaboração, avançamos mais em 40 dias do que em 10 anos. As empresas estão a virar-se definitivamente para modelos de negócios digitais e globais e entender que podem muito bem deixar modelos mais tradicionais que até eram responsáveis por boa parte dos volumes de negócio. Só este fator vai fazer mudar lideranças de mercado, quotas de mercado. Vão existir vencedores e vencidos. E como na vida real, há empresas que vão morrer e criar espaço para que as concorrentes o ocupem e outras ainda que vão reinventar modelos de negócios ainda não criados.

Mas há também um conjunto de situações benéficas para as economias que já estavam à beira de explodir: a confluência de inúmeras tecnologias de crescimento exponencial, que juntas têm o poder de mudar de disromper pelo menos metade dos modelos de negócio atuais. Entre estas tecnologias estão a inteligência artificial, a computação quântica, a revolução na biotecnologia e robótica, a internet 5G, impressão industrial 3D, os transportes autónomos, e ainda e energia elétrica a custos ridiculamente baixos para os padrões atuais. Isto para nomear apenas algumas.

A convergência de algumas destas tecnologias é explosiva. A biotecnologia e a robótica explodem com a computação quântica e a internet 5G. A energia solar vai conseguir ser 10 vezes mais barata em três anos do que é hoje, acabando de uma vez com a indústria do petróleo e tornando a água do mar como a maior fonte de água potável do mundo. Apenas este fator é de uma relevância bíblica. A automação dos transportes, sejam de pessoas ou mercadorias, associada à inteligência artificial e ao preço da energia elétrica, vai disromper totalmente a forma como pessoas e mercadorias são transportadas diariamente. Novos negócios vão surgir, outros mudar completamente e muitos simplesmente morrer. Muitos tipos de trabalhos vão desaparecer completamente, e muitos outros vão surgir. O desemprego será residual e o mundo vai-se adaptar a mais esta mudança. E se aprendermos alguma coisa com esta crise, é que o mundo precisa de solidariedade, desenvolvimento sustentável e negócios com propósito.

Lisboa, 06 de Abril de 2020

Salvador da Cunha

CEO | Lift World

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